Câmara de Descompressão

Entramos nesta Câmara de Descompressão porque estivemos demasiado tempo à superfície. Nela, seremos apresentados a paradoxos que nos estampam à frente a nossa incapacidade de resolver problemas banais; a teorias matemáticas que ao organizar o mundo, complicam-no; a expedições que nos levam (sem sair do lugar) a sítios tão profundos e insondáveis como são certas memórias. Falta saber se ao sair desta Câmara de Descompressão, a nossa lucidez e sobriedade será alguma vez recuperada, mal tomemos de novo o pulso ao mundo que habita fora dela.
‘O paradoxo não é mais do que uma tentativa de cortar, provisoriamente, o fio que liga uma ideia à lógica. Para se adicionar à lista dos paradoxos, aqui fica o do barbeiro: Um barbeiro propõe fazer a barba a todos os homens que não fazem a barba sozinhos e apenas a estes. Deverá o barbeiro fazer a barba a si próprio? Repito: Um barbeiro propõe fazer a barba a todos os homens que não fazem a barba sozinhos e apenas a estes. Deverá o barbeiro fazer a barba a si próprio? Resolvemos o problema ao afirmar que este barbeiro não pode existir (ou, brincando com as palavras, que não se trata de um homem), o que não surpreenderá ninguém, pois não existe verdadeiramente um paradoxo. Para ser exacto a demonstração precedente constitui a demonstração da não-existência de tal barbeiro. Podemos formular o paradoxo da seguinte maneira: o conjunto dos conjuntos que não pertencem a eles mesmos, pertence a si mesmo?’ [Mattia Denisse, Câmara de Descompressão]

texto: Mattia Denisse
tradução: Marta Lança
imagem: João Maria Gusmão e Pedro Paiva
design: Flatland design
Mimeografia, 260x140mm, 48 pp.,
100 exemplares.

We entered this Decompression Chamber because we spent too much time on the surface. In it, we will be presented with paradoxes that highlight our inability to solve mundane problems; mathematical theories that, by organizing the world, complicate it; expeditions that take us (without leaving our place) to places as deep and unfathomable as certain memories. It remains to be seen whether, upon leaving this Decompression Chamber, our lucidity and sobriety will ever be recovered, once we take the pulse of the world outside it again.
‘The paradox is nothing more than an attempt to temporarily cut the thread that connects an idea to logic. To add to the list of paradoxes, here is the barber’s: A barber offers to shave all men who do not shave themselves and only these men. Should the barber shave himself? I repeat: A barber offers to shave all men who do not shave themselves and only these men. Should the barber shave himself? We solve the problem by stating that this barber cannot exist (or, playing with words, that he is not a man), which will surprise no one, since there is no real paradox. To be precise, the preceding demonstration constitutes a demonstration of the non-existence of such a barber. We can formulate the paradox as follows: does the set of sets that do not belong to themselves belong to itself? [Mattia Denisse, Câmara de Descompressão]

text: Mattia Denisse
translation: Marta Lança
image: João Maria Gusmão and Pedro Paiva
design: Flatland design
Mimeography, 260x140mm, 48 pp.,
100 copies.