Vinte e Cinco Palavras ou Menos

O título deste projecto é inspirado na ideia de Iggy Pop para a criação das letras dos Stooges(1). Surgiu durante a produção de um conjunto de fotografias de grande formato, tiradas no interior de uma rulote. Nesse espaço exíguo que também lhe servia de morada, um músico ensaiava músicas que “resistiram ao tempo em que tocava bateria em bandas de covers”.
“Eco de uma época em que o conceito de liberdade era proibido e o gesto de resistência assumia uma importância incomparável para afirmar a suspeita de existir, teimando no improviso e contornando a censura na clandestinidade”(2), esta série remete o espectador para a memória política do fotógrafo que nos faz recuar até 1981. Nesse ano, entre outras fotografias vintage a preto e branco “que reclamam a poética pós-punk e o imaginário de fuga e vertigem(3), ele produzira uma série de fotografias nos bastidores de um concerto dos Clash.

Juntamente com estas, aparecem a recordação da baqueta partida do baterista da banda (Topper Headon) e uma intervenção sobre o livro Nixon e Caetano: promessas e abandono (4). Uma fotografia de cor sépia pousada numa das páginas desse volume dá a ver um soldado, em Cabinda, a tocar guitarra sentado no amplificador do próprio instrumento(5); acompanham-na, na página oposta, duas imagens: a primeira do Capitão Salgueiro Maia e outra do Major Otelo Saraiva de Carvalho. Este conjunto de imagens e objectos expostos numa mesa reporta este projecto para um diálogo em que se cruzam, por um lado, narrativas políticas ? nomeadamente o tempo do colonialismo e a revolução do 25 de Abril ? e por outro, a ideia da estrada no imaginário da Beat Generation(6) e do universo musical punk-rock(7), fruto de uma utopia “militante” por não querer “nem governo nem Estado”, postura própria de uma juventude inconformada com o passado subjugado por uma sociedade conservadora e pelo preconceito social, de que nos fala o filme Verão Escaldante(8).

O movimento punk, a SIDA e a transexualidade marcaram esse tempo que este projecto não esquece a partir de uma colaboração com transexuais e pessoas com SIDA para a execução de obras fotográficas de estúdio.
Os valores artísticos da propaganda política do Estado Novo passavam pela ideia da cultura tradicional popular “com particular interesse pela olaria, a cerâmica, a ourivesaria e a alfaiataria”(9). O 25 de Abril pôs fim ao conceito de um país “orgulhosamente sós” e marcou o início de um processo de abertura para uma nova realidade que este projecto reconstitui, reavivando a memória de uma geração que viveu esse período antes e depois da Revolução.


Data de Lançamento: 2024
Dimensões: 20.5 x 27.5
Encadernação: Capa dura
Páginas: 157

The title of this project is inspired by Iggy Pop’s idea for the creation of the Stooges’ lyrics¹. It emerged during the production of a series of large-format photographs taken inside a caravan. In this cramped space, which also served as his home, a musician rehearsed songs that “withstood the time when he played drums in cover bands.” “An echo of a period in which the concept of freedom was forbidden and the act of resistance assumed incomparable importance in affirming the suspicion of existence, stubbornly insisting on improvisation and circumventing censorship through clandestinity”², this series takes the viewer into the photographer’s political memory, taking us back to 1981. That year, among other vintage black-and-white photographs “that lay claim to post-punk poetics and an imagery of escape and vertigo”³, he produced a series of photographs backstage at a Clash concert.

Alongside these appear the memory of the band’s drummer’s broken drumstick (Topper Headon) and an intervention on the book Nixon and Caetano: Promises and Abandonment⁴. A sepia-toned photograph placed on one of the book’s pages shows a soldier in Cabinda playing the guitar while sitting on the amplifier of his own instrument⁵; accompanying it, on the opposite page, are two images: one of Captain Salgueiro Maia and another of Major Otelo Saraiva de Carvalho.This set of images and objects, displayed on a table, situates the project within a dialogue that intersects, on the one hand, political narratives—namely the period of colonialism and the 25 April Revolution—and, on the other, the idea of the road within the imagination of the Beat Generation⁶ and the musical universe of punk rock⁷, the result of a “militant” utopia that sought “neither government nor State.” This stance was characteristic of a youth discontented with a past subdued by a conservative society and by social prejudice, as portrayed in the film Hot Summer⁸.

The punk movement, AIDS, and transsexuality marked this period, which the project does not forget, drawing on collaborations with transsexual people and individuals living with AIDS in the production of studio photographic works. The artistic values of political propaganda during the Estado Novo were rooted in the idea of traditional popular culture, with “particular interest in pottery, ceramics, goldsmithing, and tailoring”⁹. The 25 April Revolution put an end to the concept of a country “proudly alone” and marked the beginning of a process of openness to a new reality, which this project reconstructs by reviving the memory of a generation that lived through that period both before and after the Revolution.

Release Date: 2024
Dimensions: 20.5 x 27.5
Binding: Hardcover
Pages: 157

15,00 €