Com o tempo preso na garganta, ou a última partida
Laila Algaves Nuñez

O lago está sempre calmo, é verdade. Ainda assim, há momentos em que está especialmente imóvel, tão tácito que nos cala o mais ínfimo aprumar das penas, tão reto que nos repete o mundo ao avesso, nítido como uma pedra e todo o resto que está sobre a linha d’água. Sei que assim será quando estiro o pescoço, ainda sonolento e preguiçoso, e toco logo num vazio denso de profecia, as águas já a prender a respiração, como que para adivinhar connosco qual dos mundos cede primeiro. O que se segue é sempre um acontecimento importante — um barco. Um homem a cortar, com elegância, essa mansidão desmedida que me põe cismado.

São vários. Ainda surpreendo-me, de tempos em tempos, quando surge um novo rosto à beira. Nunca estão acompanhados e, por isso, raramente oiço-os a escapar qualquer som. Quando o fazem, cantam — alguns envergonhados de nós, outros com uma confiança indiferente. Já vi-os emocionados, inspirados, cansados, distraídos. Já vi-os a raspar, riscar, medir, fazer muito e fazer pouco com as coisas que trazem. Alguns já me olharam no olho. Este foi um deles.

Era um dos menos elegantes, confesso. Primeiro, passei a reconhecê-lo pelo barulho tosco que a sua embarcação produzia quando esbarrava no lago. Pedia licença, sem jeito, como se não conhecesse o espaço que o próprio corpo ocupa, como se cada vez fosse a primeira a experimentar o seu peso sobre a água. Depois, já o reconhecia pela disritmia dos seus passos. Embora lhe faltasse graciosidade, gostava do que compunha com as suas ferramentas. Acompanhava as suas criações — outros duplos do mundo fora d’água — com entusiasmo, sempre apenas até aquele maldito objeto insinuar-se do seu bolso. Era quando ele parava, deixando o seu gesto a meio, e regressava à terra. Vi-o realizar o mesmo ritual incontáveis vezes — e vi-me, também, a ansiar pelo momento em que ele, não mais com o seu ar de urgente, concluiria aquilo que fabricava

Foi então que percebi que a chave da questão estava ali, tão óbvia embaixo do meu bico. Apesar de mantê-la por perto, talvez aquela peça redonda lhe soasse absolutamente estrondosa e irritante, como para nós. Talvez bastasse acabar com o insistente tick tock, tick tock, tick tock que lhe ordenava a partida — e ele então ficaria, até ao fim. Uma mordida. Tinha a certeza de que tudo estaria resolvido. Aproximei-me, delicado, e estiquei-me num só golpe. Engoli-a.


O tempo ficou preso na garganta de um cisne. A história — que já terá sido a rota mais eficiente entre o aqui e o lá1, o antes e o depois — engasgou-se, curto-circuitou, passou de linha a ponto (ou qualquer que seja o oposto de uma linha). Entalada entre o dentro e o fora (o IN e o OUT), descreve, agora, pelo menos duas direções em simultâneo. São assim as histórias que interessam e informam o trabalho de Tiago Madaleno — crónicas poderosas em produzir e extravasar (con)textos, isto é, hábeis em abordar determinados assuntos precisamente enquanto falam sobre outra coisa qualquer. Nas suas obras, sente-se que cada palavra ou imagem contém uma deriva, um desfasamento entre forma e sentido. Abrem frentes, brechas, rachaduras; são fumo em facto e figura — um sinal do fogo que arde (ou ardeu, ou arderá) algures fora da visão. Ficar a meio é a sua força.

O cisne abocanha o relógio, que é agora um corpo estranho. Digeri-lo-á? Misturá-lo-á aos ritmos internos das suas vísceras até que todos os pedacinhos de vidro estejam devidamente triturados? Viverá para ver o tempo regressar ao pintor2? Ou terá conseguido interromper, de uma vez, todas as partidas e todas as chegadas? Pessoalmente, gosto de imaginar o tempo ali, quase parado, enfim silencioso, ao sabor da fermentação da saliva ou de um espasmo involuntário no esôfago. E se isto não lhe desce goela abaixo? O que sucede ao pensamento de origem, se não há depois? Ou ao exílio, se nunca houve a possibilidade de retorno? Que língua falar com o outro, se já não é nativo de nada? O tempo, organismo intruso, aloja-se no centro do corpo, deixando-nos somente e nada mais que o demorar. Não é um verbo simples. Sabemo-lo derivar de morada, abrigo, habitação — o que nos conduz algo precipitadamente a ideias de autonomia, soberania, unidade e, com alguma razão, fixidez. Contudo (e porque também Madaleno partilha do gesto de quebrar palavras), há algumas subtilezas por desvendar num dos seus significados menores: o radical pré-romano mor-, que indica acervo, ou, tão só, um amontoado de pedras3. Morar, portanto, reflete um processo de coleta, um gesto que reúne e guarda o que foi, mas que, ao criar um lugar de excesso, nutre, igualmente, o que pode ser.

Todas essas relações residem na exposição de Madaleno — somos recebidos em casa, embora não saibamos exatamente se a nossa ou a de outrem; se enquanto hospedeiros ou hóspedes. Em francês, a palavra é uma: hôte. Esta permanecerá, portanto, uma questão em aberto, designando posições em constante intercâmbio ou, quem sabe, sempre justapostas. Nesse espaço, no pescoço desse cisne tão absolutamente branco, o tempo estremece entre a assimilação e a expulsão; sedimenta a sujidade, o ritual e a identidade. A soberania do eu nessa casa é uma ilusão (já nos dizia Freud), porque nem o eu, nem a casa podem ser entidades completas e encerradas. Nunca logram coincidir consigo mesmos. Existem em demora — eternamente acúmulo e abundância. Refazem-se no limiar entre o interior e o exterior, entre dois animais e um relógio. Assim, ainda que o tempo sobreviva à garganta e retome o seu ofício organizador, saberemos agora que voltar à casa, ou voltar a si, implica compreender que ambos são lugares onde nunca estivemos4.

[1]  Cito o autor, advogado e ativista político Dylan Saba, no seu ensaio Point of No Return (2024).
[2]  Escrevo esta nota por último, depois de muito cogitar se deveria ou não oferecer alguma prova de veracidade ao texto.
Sem nenhum apego à realidade dos acontecimentos, concluí, porém, que a pessoa leitora poderá regozijar-se ao saber que esta anedota parece ter acontecido, de facto, ao pintor alemão Kurt Schwitters (1887-1948). Num dia de verão, em Grasmere, Inglaterra, teve o seu relógio de bolso comido por um cisne — que, sob a tutela da Coroa britânica, saiu impune, sem jamais responder pelo furto. Diversos momentos da vida de Schwitters têm orientado os trabalhos de Tiago Madaleno, como em Um Jardim à Noite (2020, RAMPA), Uma folha no bolso (2022, Estabelecimento Prisional do Porto, uma comissão do Museu de Arte Contemporânea de Serralves) ou Sala de Fumo (2023, Museu Guerra Junqueiro).
[3]  Segundo o historiador Armando de Almeida Fernandes, em Toponímia Portuguesa – Exame a Um Dicionário (1999).

[4]  Aludo diretamente à frase de Ursula K. Le Guin, no seu romance Os Despojados, traduzido e publicado pela Edições Saída de Emergência: “[p]odes voltar para casa, […] desde que compreendas que casa é um lugar onde nunca estiveste” (2017, p. 60).


  • "No Pescoço do Cisne, Tiago Madaleno

    Mais Silva Gallery - Sala 1 e 2, Porto (PT)
    2026
    © Filipe Braga

OBRAS EM EXPOSIÇÃO