
Aos Montes
Ángel Calvo Ulloa
Pedro França titubeia quando lhe faço perguntas sobre o seu trabalho. Ele explica-me as suas pinturas por meio de imagens de natureza diversa e descrições sugestivas, que narram situações propícias e apontam em múltiplas direções. Acostumado a ouvir interpretações precisas — quase matemáticas — sobre os motivos que levam alguns artistas a abordar cada uma de suas obras, fico surpreso quando alguém hesita e recorre a outros materiais que nem sempre resolvem as dúvidas, mas sim incorporam mais perguntas à narrativa.
Encontrei-me com o seu trabalho pela primeira vez em 2017, no âmbito da Trienal Frestas, no SESC Sorocaba, e, um ano depois, em outra exposição coletiva no espaço Olhão, também em São Paulo. Naquela altura, membro ativo do grupo de teatro Ueinzz1, as instalações de França respondiam a uma lógica cenográfica que incorporava figurinos de algumas das montagens da companhia, bem como o habitual verde croma, como pano de fundo para uma realidade múltipla, que poderia ser outra, ou que poderiam ser muitas. Nos anos seguintes, após repetidas e frustradas tentativas de visitar o seu ateliê — mea culpa, confesso —, o nosso encontro foi sendo adiado e só aconteceu por acaso em 2025, em Coimbra, onde ele e a artista Raphaela Melsohn, sob a curadoria de Luiza Teixeira de Freitas, partilhavam um projeto nas salas do CAPC Sereia.
«Sei onde eles estão. Vamos», diz o menino Flyora Gaishun numa das cenas mais difíceis do filme Vá e veja [Come and see]. Ao chegar a uma aldeia aparentemente desabitada, Flyora encontra uma jovem em estado de choque, a quem guia na busca pelos seus vizinhos, cujo paradeiro é desconhecido. Correndo em direção a uma zona pantanosa próxima, a rapariga vira-se e observa, ao lado de um dos celeiros da aldeia, uma grande pilha de corpos sem vida. Vá e veja narra, da perspectiva russa, a sangrenta campanha de extermínio contra o povo bielorrusso pelas tropas nazis durante a Segunda Guerra Mundial. A imagem do monte de cadáveres não é nova para nós, já a vimos tantas vezes que, de certa forma, ficamos neutralizados diante dela. A série de pinturas Nous ne sommes pas les derniers, realizada pelo esloveno Zoran Mušič na década de 1970, quase quatro décadas depois de sua passagem pelo campo de concentração de Dachau, mostra o impacto que as pilhas de corpos causaram em um artista que, nos anos posteriores àquela experiência, pareceu voltar como se nada tivesse acontecido à sua vida anterior e às suas pinturas das paisagens da Dalmácia. Cenas repletas de elevações rochosas e colinas que, no entanto, agora, observadas com a consciência daqueles amontoamentos que ele pintaria anos mais tarde, parecem pulsar como um presságio do que Mušič pôde ver e desenhar em segredo durante o seu internamento.
No entanto, amontoar não é uma disposição que possamos associar exclusivamente aos fatos comentados. Pedro França mostra-me fotografias das pilhas que se formam em cenas de comemoração. Ver os jogadores de uma equipa comemorarem a conquista de um título ou imaginar um grupo de crianças a divertirem-se dessa forma tem muito de lúdico e, a priori, muito pouco de preocupante. Numa montanha de corpos vivos, agrupados por decisão própria, os membros ficam emaranhados. Alguém move uma perna e esta parece dissociada do corpo de que depende. A individualidade entra em questão e opera, em certa medida, uma disposição vinculada que exige organização para entrar e sair. Um amontoado também indica outro tipo de abundância: comer um monte de amoras; ter montes de meias para emparelhar; acumular trabalho ou ver o nosso pedido engrossar a pilha de pastas de qualquer escritório da administração estatal. Tudo isso também fala dessa individualidade posta em questão. Mas receio que, embora Aos montes possa ser tudo isso, intuo que também poderia ser simplesmente um engodo que permite a Pedro França continuar criando cenários possíveis para esse vínculo com o teatro do qual ele não consegue se desligar.
França afirma frequentemente que é no desenho que reside a essência do que pretende transmitir com o seu trabalho. Porque desenhar é a forma mais ágil de colocar no papel uma ideia ou uma imagem que lhe passa pela cabeça e, longe de desenhar a partir do natural, ele encontra essas imagens em sonhos ou em memórias vagas, por vezes condicionadas por certas alterações da consciência. Aos montes toma forma através de um conjunto de pinturas grandes e pequenas abordadas por meio de técnicas diversas, rebuscadas como o strappo ou a monotipia sobre papel, e mais comuns como o óleo, a têmpera e o lápis sobre linho. A natureza evocativa das imagens é talvez o que nos permite conectar este tipo de soluções com outras em que o artista recorre ao vídeo, a grandes mosaicos cerâmicos ou a instalações povoadas de manequins e recursos virtuais tão supostamente distantes, por exemplo, destas telas agora arrancadas da parede. Intuo que França opera a meio caminho entre as danças de Matisse e as cenas de violência de Leon Golub. Situações coletivas imprevisíveis, presenças fantasmagóricas como as apresentadas naquela árvore formada por corpos humanos à qual França volta repetidamente. O que preocupa França não é tanto o significado simbólico estrito de uma imagem ou de uma ação, mas o facto de esta estar aberta e, mais do que uma narrativa, constituir um cenário próprio para que algo aconteça. Talvez por isso, por vezes, o cenário aparece vazio, sem personagens e quase sem objetos. Noutras ocasiões, pelo contrário, como se fosse um grande armazém de adereços cinematográficos, França dispõe de uma grande quantidade de objetos pertencentes a temporalidades irreconciliáveis; prontos para serem combinados, exibidos e ativados, como a pistola de Chekhov.
[1] A companhia teatral Ueinzz, fundada en 1997, é um grupo independente e pioneiro que integra usuários de saúde mental, terapeutas, filósofos e atores.
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