
O fim de um desenho, o início de um texto
Laila Algaves Nuñez
Em todos os lados, metamorfose. Atravessa-me nas leituras, nos filmes, sonhos, pesadelos, nas sessões de análise, nas mensagens esfíngicas nas saquetas de chá. Quando uma palavra se ilumina, parece multiplicar-se por entre os reinos e as ruas, pululando diante do olhar, insistindo os seus sinais, convidando à descoberta dos seus caminhos. Como Alice, que persegue o Coelho Branco buraco a dentro, ou o Tolo, que dá um passo convicto em direção ao abismo, vejo-me de repente a saltar nos precipícios da metamorfose, ardendo de curiosidade pelos seus vários sentidos, usos e imagens. Tombo, simplesmente, num poço sombrio e de grande profundidade – aliás, das duas uma: ou o poço é demasiado fundo ou estou a cair bem devagarinho[1].
A jornada começa, de facto, com a fantasia, onde a metamorfose primeiro me aparece – ou, pelo menos, onde primeiro aparece com todo o seu esplendor, sem timidez. Entregue aos devaneios do especulativo, o corpo cede na sua anatomia, ganha outras cores e escalas, planta novos ossos, faz crescer narizes-paus – agita-se, em suma, sem a obrigação de responder aos próprios limites ou a uma natureza primordial. Não à toa, nas obras de Mattia Denisse, há uma intensa sensação – assim mesmo, vaga e profundamente intuitiva – de que ultrapassamos a cronologia impertinente do antes-e-depois para nos confrontarmos, em vez disso, com o sempre-já-foi. Os seus motivos, recorrentemente curvilíneos, abaulados e instáveis, parecem captar um brevíssimo instante dentro desta constante cadeia de mudanças e acumulações, do balburdimeio[2] das coisas – o eterno inacabamento da existência como condição única de todas as formas.
Mas se a experiência da metamorfose faz qualquer pensamento de origem parecer vão, é também verdade que há algo nela que aponta para uma espécie de tempo mitológico. Pode até não admitir o pretérito, mas informa, não obstante, um recuo. Testemunhar uma pintura de Denisse é como testemunhar uma imagem pré-histórica, desconhecida da linguagem, anterior ao humano – anterior à criação do mundo. Nalguns casos, estamos mesmo diante deste momento onde tudo se faz ou se inventa ineditamente: o primeiro A, o primeiro B, o primeiro Antropoide, as primeiras mãos que fixam a primeira pintura. Numa fração de segundo, porém, o primeiro torna-se o último: o último eucalipto a arder, a última verdade dita, a última imagem do unicórnio antes de se afogar, o último inverno ou o último verão habitáveis antes do deserto nuclear. No sistema transformacional do mito, curto-circuitam-se o reversível e o irreversível, o contínuo e o descontínuo, aquilo que transcende ao passo que inscreve – e escreve, como quem pressagia – o concreto.
A metamorfose está posta numa carta de baralho, num arcano de Tarô, numa imagem de Denisse: revela-nos algo absolutamente evidente, enquanto não diz, rigorosamente, nada. Como no texto mítico, não contém em si a chave da sua decifração – ou, como diria a autora Carola Saavedra sobre a arte oracular, lapidar as perguntas mostra-se mais premente que definir as suas resoluções: “[q]uando elas se tornarem perfeitas, você não precisará mais das respostas.”[3] Assim, da fantasia ao mito, a metamorfose desce mais um degrau em direção ao mundano para surgir no sonho – esse delírio quase diário do desejo que nunca se confessa, nunca se descortina. Mesmo se minuciosamente dissecado pelo mais competente dos psicanalistas freudianos, conservará sempre um ponto insondável, um beco sem saída – o “umbigo do sonho”. E então se iluminam todos os umbigos nas metamorfoses de Denisse: uma bala no ombro, o escuro de uma fissura, um par de olhos impenetráveis, o tronco de uma maçã ou tão-somente um ponto focal que fura a composição.
De certa forma, esse umbigo inescrutável é também o umbigo do Banquete de Platão, lembra-me Denisse – a marca de um corte traumático que desligou o humano da sua outra metade, sobrando, incompleto, em busca de reconectar-se com o mundo. Resisto à ideia – pessoalmente, teimo que é o excesso, e não a ausência, que caracteriza a vontade de vida –, mas não nego a beleza da hipótese de que a falta seja força motriz para a metamorfose. Talvez por isso o artista recorra às imagens gémeas, ao vice-e-versa ou à repetição da linguagem, recursos que intensificam uma existência ou um significado antes fugidio, porque inacabado: se algo é de facto longe, então é longe, longe; um peixe, portanto, tem também de ser um peixe-peixe, visto que um peixe, só, pode facilmente ser (ou tornar-se) outra coisa.
E por falar em peixes – ou flamingos, ostras e vermes –, resta, ainda, a metamorfose do mais concreto dos planos, daquilo que acontece ao abrigo das possibilidades físicas e anatómicas dos corpos, embora tão corriqueiramente quanto a fantasia ou o sonho. Graças ao efeito Denisse, parafraseando Bruno Latour acerca das fábulas científicas de Vinciane Despret, “[p]assamos da questão do antropomorfismo” para aquela, muito mais interessante, “da natureza multifacetada do que significa ser ‘animado’. Cientistas, criadores e amantes de animais, donos de animais de estimação, funcionários de zoológicos, comedores de carne – estamos todos constantemente tentando evitar a inanimação ou a hiperanimação daqueles seres com quem trocamos de forma o tempo todo”[4]. Em última instância, trocamos de forma, até, com a sujidade das águas, um por do sol rosado ou uma nuvem de cogumelo – também as paisagens são entidades com as quais interagimos e negociamos agências.
No fundo do poço, uma metamorfose culminante – se bem que jamais derradeira: a morte. O sangue, o avesso, a guerra, o grotesco. O girassol murcho, a carne explodindo. A súbita mudança de escala, a biomassa, o silêncio; nem mesmo a dúvida. No exato instante, já uma nova linguagem, uma onomatopeia amorfa a fender o ar: o fim de um texto, o início de um desenho.
[1] Frase modificada a partir da tradução de André Cristi de Alice no País das Maravilhas, de Lewis Carroll, conforme edição digital do livro publicada em 2019 sob o selo do Instituto Mojo de Comunicação Intercultural.
[2] Referência ao verso “In the buginning is the woid, in the muddle is the sounddance […]”, numa das mais sofisticadas metamorfoses empreendidas na linguagem, a obra Finnegans Wake, de James Joyce (1939, p. 378). Utilizo a desafiante tradução para o português proposta pelo Coletivo Finnegans em Finnegans Rivolta, publicado pela editora Iluminuras: “No começo era o palavácuo, no balburdimeio é som-dança […]” (2022, p. 414).
[3] Saavedra, Carola. (2021). O mundo desdobrável: ensaios para depois do fim. Relicário Edições, p. 190.
[4] Latour, Bruno. (2021). “As fábulas científicas de uma La Fontaine empírica”. In: Despret, Vinciane. O que diriam os animais?. Ubu Editora, p. 13.
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