
Paisagem-fuga
Paulo Ávila
Imagina-se um jogo e, cedendo ao hábito de supor que todo o jogo tem um começo, toma-se, por exemplo, um material: como aparece um tecido? Supõe-se que, antes, há um diagrama, um esquema de linhas inexpressivas e das suas relações, ainda em suspenso. Depois, há um processo mecânico que as imita, dispondo no seu lugar fibras entrelaçadas num arranjo débil, sujeito à erosão do tempo. Antes, há uma ideia de rigor, uma disciplina. Depois, há o facto concreto e a sua incomensurabilidade. O jogo decorre na passagem, quando o plano se faz sensível à imprevisibilidade da matéria.
Ao inverter-se o jogo, o real derrama-se na abstracção do esquema. A futura deflagração de uma mancha já foi sonhada no diagrama de um tecido. A aparente rigidez da regra desvela a fórmula da sua disponibilidade; multiplica canais, lança teias, pontos de ancoragem, sem com isso precisar destinos. Um dia, a tinta irrompe pela trama sem se circunscrever à sua regra. Assume a lei da gravidade, concentra-se numa área húmida, infiltra-se pela linha de um vinco, recobre a monotonia abstracta com tonalidades siderais. O exterior inunda a superfície disposta pela regra. A mancha testemunha o estar-no-mundo do tecido. O jogo desperta, reacendido pelo acaso.
Tomada pela mesma vocação mecânica do tear, a mão traça a lápis uma quadrícula na superfície do tecido, restituindo o diagrama em traços vívidos, num gesto cartográfico. Um novo sistema de coordenadas instala-se no território heterogéneo, imprimindo-lhe uma estrutura, reinscrevendo o acaso em segmentos — cada parcela, uma paisagem recapturada. O gesto que induz a fuga é seguido de outro que a cristaliza. A regra absorve o acaso, esboçando a alternância de uma respiração. Pode então dizer-se que o jogo respira, que tem vida própria e se fez movimento puro. Habitar o jogo é descobrir o gesto que assegura a sua respiração.
A mão recorta agora, noutro plano, uma série de janelas idênticas. Guiando-se pelo ritmo da quadrícula, dispõe o plano vazado sobre o tecido. A mancha começa a preencher cada recorte com a sua instabilidade. A repetição do contorno eleva a vibração desigual da mancha, como uma janela que produz a sua própria paisagem. Todo o plano é tingido por um movimento em estado de latência. O gesto faz-se cinematográfico, arquitectónico, sem abandonar a superfície. Anima recortes como personagem. Insinua profundidades, cintilações, deslocamentos. Revela, ocultando, fenómenos imprecisos, adensando a espessura do jogo pela estratificação da sua alternância.
O jogo é um rito de suspensão. Desativa a imposição na regra e faz dela uma máquina de produzir desvios. Desvincula a repetição da cópia e converte-a em estratégia para convocar a diferença. A disciplina do jogo revela-se assim, como uma janela, um método premeditado de ausência. Segue dispondo vazios para a inscrição do mundo. Um dia, outro olhar percorre a arqueologia do jogo, indiferente à ordem dos seus estratos, ignorando o que veio antes ou depois, maquinando a superfície do jogo com as suas próprias imagens. O jogo liberta-se da mão que faz e atravessa a distância irredutível que a separa de outro olhar, abrindo a via do seu prolongamento indefinido. Por oposição ao hábito, que tende sempre para a fixação do mundo, o fascínio do jogo afirma-se pelo seu hábil adiamento.
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